Nem todo problema da vida adulta nasceu na infância.
Há uma frase que escuto com frequência no consultório.
“Eu sou assim por causa da minha infância.”
Às vezes ela vem acompanhada de uma história dolorosa. Um pai distante. Uma mãe controladora. Uma casa onde faltou afeto. Outras vezes, basta uma lembrança aparentemente simples para explicar anos de sofrimento. E eu não duvido da dor, a infância realmente nos marca, seria ingênuo negar isso.
O modo como fomos amados, corrigidos, vistos e acolhidos influencia profundamente a maneira como aprendemos a nos relacionar com o mundo.
Mas existe uma pergunta que, mais cedo ou mais tarde, precisa aparecer.
Até quando a sua infância continuará escrevendo a sua vida adulta?
Percebo que muitas mulheres chegam ao consultório tentando entender o casamento
sem perceber, passam boa parte da sessão falando dos pais.
“Minha mãe sempre fazia isso.”
“Meu pai nunca demonstrava carinho.”
“Na minha casa era assim.”
Quando vejo, o marido já nem faz mais parte da conversa e muito menos ela.
Estamos todos olhando para uma casa que ficou para trás.
E, embora seja importante compreender essa história, existe um momento em que ela deixa de explicar e começa a ocupar espaço demais, porque uma coisa é conhecer as próprias raízes, outra, bem diferente, é continuar vivendo como se elas ainda fossem o único lugar possível para existir. E aqui pego num ponto que machuca, viu?!
Talvez uma das tarefas mais difíceis da vida adulta seja justamente esta: deixar de viver apenas como filha. Ah, é importante dizer que não estou falando de abandonar os pais, nem culpá-los. Estou falando de algo mais silencioso…
Há mulheres que já saíram da casa dos pais há vinte anos, mas continuam organizando a própria vida em torno deles.
- Ainda precisam da aprovação.
- Ainda respondem às críticas que ouviram na adolescência.
Ainda tentam provar que são suficientes.
Ainda acreditam, no fundo, na menina que um dia ouviu que era “difícil”, “sensível demais”, “desorganizada”, “fraca” ou “incapaz”.
O corpo cresceu mas aquela voz continua decidindo muita coisa.
Existe uma diferença enorme entre ter uma história e viver prisioneira dela.
A primeira faz parte da condição humana.
A segunda impede o amadurecimento.
Porque, aos poucos, a identidade passa a ser construída em torno daquilo que aconteceu.
“Sou insegura porque…”
“Não consigo confiar porque…”
“Meu casamento é assim porque…”
As explicações começam a ocupar tanto espaço que quase já não sobra espaço para as escolhas.
E talvez seja aqui que exista uma das maiores confusões do nosso tempo.
Compreender o passado não é o mesmo que entregar a ele o comando do presente. E claro que entender de onde veio uma ferida pode ser profundamente libertador, mas nenhuma ferida deveria ter a última palavra sobre a vida de um adulto.
Em algum momento, a pergunta precisa ser: O que farei, agora, com a pessoa que me tornei?
Essa é uma pergunta difícil porque ela devolve algo que muitos de nós gostaríamos de evitar: A responsabilidade.
Responsabilidade não é culpa. Essa distinção é importante.
Você não é culpada por tudo o que viveu, mas continua responsável pela maneira como escolhe responder àquilo que viveu.
Essa talvez seja uma das formas mais bonitas de liberdade, perceber que o passado explica parte da história, mas não escreve sozinho os próximos capítulos.
Há outra cena que observo com frequência: Um casal chega dizendo que quer melhorar a comunicação, mas basta começarmos a conversar para perceber que, naquela sala, não existem apenas duas pessoas.
Existem o pai dela, a mãe dele, as críticas que ela ouviu aos doze anos, o silêncio que ele aprendeu na infância, as expectativas da família, os medos herdados, as comparações, as lealdades invisíveis (oh tema que gosto de falar)…
Sem perceber, o casal tenta construir um casamento enquanto continua respondendo a histórias que começaram muito antes de eles se conhecerem. É como tentar escrever um livro novo usando apenas frases antigas.
Amadurecer não significa esquecer a infância, significa colocá-la no lugar certo.
Ela faz parte da sua história, mas não pode continuar sendo a autora da sua identidade.
Porque existe uma vida que começa quando deixamos de perguntar apenas de onde viemos e passamos, finalmente, a perguntar para onde estamos indo.
Essa mudança parece pequena, mas transforma tudo. Ela muda a maneira como você ama, educa seus filhos, responde às críticas, enfrenta um conflito no casamento, como olha para si mesma.
Eu vejo que crescer seja exatamente isso: olhar para a própria história com respeito, sem permanecer presa a ela.
- Agradecer o que foi bom.
- Reconhecer o que feriu.
- Chorar o que precisa ser chorado.
Mas, depois, levantar.
Porque nenhuma infância — por mais bonita ou por mais difícil que tenha sido — pode viver a vida adulta no seu lugar.
Existe uma mulher que só pode nascer quando a menina deixa, finalmente, de conduzir a história.
E talvez esse seja o início do verdadeiro amadurecimento.
Com amor
Sua terapeuta
