Quando a intimidade deixa de ser um encontro e passa a ser uma performance
Há alguns dias, li uma pergunta que me fez pensar:
“Meu marido tem o pênis pequeno. Como não deixar isso atrapalhar nossa vida sexual?”
Respondi a essa pergunta através de um vídeo no Instagram, onde pude explicar que o grande problema dessa preocupação estava muito além da anatomia.
Achei importante desenvolver mais o tema, pois noto que muito se fala dos problemas da pornografia, mas pouco se fala da forma como olhamos para nossos parceiros (as).
Talvez você não tenha notado, mas estamos numa era de alta performance (esse comentário foi irônico, todos nós sofremos com a cultura da performance).
Existe desempenho profissional.
Desempenho financeiro.
Desempenho na maternidade.
Desempenho estético.
E, naturalmente, desempenho sexual.
Sem perceber, começamos a acreditar que a intimidade também precisa ser medida.
É aqui que algumas inseguranças que não deveriam existir, passam a fazer parte da vida do casal: quanto tempo dura a relação? quantas vezes por semana? se fizer na posição x é por causa de y que o casal está vivendo? E assim vai…
Tudo sendo comparado como uma avaliação, e o casal perde a espontaneidade própria do ser humano e passam a analisar indicadores como se fossem empresários avaliando um produto ou serviço.
Talvez seja por isso que tantas mulheres estejam angustiadas, não porque o casamento seja necessariamente ruim, mas porque aprenderam a observar a própria vida a partir de padrões que nunca nasceram dentro do casamento.
É filme, novela, Instagram, a vida de algum amigo… enfim.
De repente, existe um modelo invisível de como uma vida sexual deveria ser, e qualquer diferença passa a parecer um problema.
Voltando lá na pergunta, ela
nasce de um lugar específico.
Ela não pergunta:
“Como podemos crescer em intimidade?”
Ela pergunta:
“Como isso não atrapalha?”
Essa pequena diferença de palavras revela duas formas completamente diferentes de enxergar o casamento:
1ª A sexualidade é uma construção.
2ª A sexualidade é uma avaliação.
Talvez esse seja um dos maiores prejuízos da pornografia – e aqui não falo apenas dos filmes Hardcore, falo do Softporn também (lembra da banheira do Gugu?).
A pornografia apresenta corpos irreais, performance circense, com uma lógica completamente diferente da lógica do amor.
Quando a formação afetiva envolve apenas o prazer, sem a dimensão humana, temos uma vida sexual veterinária – dois animais – literalmente – transando.
No casamento, o prazer vem DEPOIS da pessoa humana.
E o primeiro passo para mudar essa perspectiva no casamento é se perguntar: O que está acontecendo entre nós que faz com que eu olhe primeiro para o corpo e só depois para a pessoa?
Essa pergunta não ignora a dimensão física da sexualidade, mas a recoloca no lugar certo. Entenda, o corpo importa, a atração, o prazer, tudo isso é necessário, mas NUNCA separado da pessoa.
Gosto de uma frase de São João Paulo II que diz: a pessoa nunca pode ser usada apenas como um meio para um fim. (Teologia do corpo)
Essa ideia vale também para a intimidade. Quando o outro passa a ser avaliado apenas pela sua capacidade de satisfazer expectativas, ele deixa de ser contemplado como pessoa transforma-se em instrumento.
Talvez seja justamente isso que tantas comparações fazem conosco, né? Elas retiram o rosto do outro e colocam, no lugar dele, uma régua.
Quando atendo os casais ou somente a mulher (o que acaba sendo mais comum), percebo que a satisfação conjugal raramente nasce da perfeição.
Uma mulher que se sente segura, por exemplo, tende a querer mais relações sexuais com o marido. Já um homem que convive com uma mulher mais leve, tende a querer mais relações com ela.
A sexualidade bem resolvida, ordenada nasce da intimidade emocional que o casal constrói ao longo dos anos, da real vontade de se entregar um para o outro independente das circunstâncias.
Depois de analisar essa pergunta várias vezes, cheguei na seguinte conclusão: essa mulher não está realmente preocupada com a anatomia peniana de seu marido, ela está vivendo uma dor que tem nome e sobrenome: Nós ainda conseguimos nos encontrar um no outro… ou estamos apenas tentando corresponder ao que o mundo disse que uma vida sexual deveria ser?
Porque o casamento não foi criado para vencer uma comparação, mas para que duas pessoas aprendam, ao longo da vida inteira, uma forma muito rara de amor.
Aquela em que ninguém precisa provar nada.
Apenas permanecer.
Com amor
Sua terapeuta
