“Não aceite menos do que você merece”: o que uma mulher realmente merece no casamento?
“Não aceite menos do que você merece.”
Talvez poucas frases tenham se tornado tão populares entre as mulheres que procuram orientação para seus relacionamentos. Ela aparece em vídeos, conversas, livros, redes sociais e, muitas vezes, chega como uma espécie de libertação: você merece mais, então não aceite menos.
Existe uma verdade importante aí. Uma mulher não deve aceitar violência, humilhação, abandono deliberado, traições repetidas, manipulação ou qualquer outra forma grave de desrespeito à sua dignidade.
Mas existe uma pergunta anterior que quase nunca fazemos:
O que, exatamente, eu mereço?
Essa pergunta parece simples, mas ela muda completamente a conversa.
Porque, se não soubermos responder o que é devido à pessoa humana, “não aceite menos” pode facilmente se transformar em outra coisa: não aceite nada que contrarie suas expectativas.
E essas duas coisas estão muito longe de ser iguais.
O problema começa quando confundimos dignidade com desejo
Uma mulher merece ser respeitada.
Isso é diferente de dizer que ela merece um marido que nunca a decepcione.
Ela merece fidelidade. Isso é diferente de dizer que merece que ele compreenda espontaneamente todas as suas necessidades.
Ela merece ser amada. Isso é diferente de dizer que merece sentir-se amada o tempo inteiro, da maneira que imaginou.
Ela merece consideração. Isso não significa que todas as suas preferências devam ser atendidas.
Talvez uma das grandes confusões dos nossos relacionamentos esteja justamente aqui: transformamos aquilo que gostaríamos de receber em aquilo que acreditamos ter direito de receber.
E, quando isso acontece, qualquer frustração passa a parecer uma injustiça.
Ele não fez como eu esperava.
Ele não percebeu.
Ele não falou da maneira que eu gostaria.
Ele não colocou aquilo como prioridade.
Ele não correspondeu à imagem que eu tinha construído.
Então surge a conclusão: “Estou aceitando menos do que mereço.”
Mas será?
Ou estou diante da experiência inevitável de conviver com outra pessoa, que também é limitada, diferente de mim e ainda está em processo de amadurecimento?
Uma pessoa não existe para satisfazer a outra
Aqui entramos em uma questão propriamente antropológica.
O homem não é um objeto destinado à satisfação das necessidades de outro homem.
E isso vale também dentro do casamento.
Meu marido não existe para completar aquilo que falta em mim, eliminar minhas inseguranças, confirmar continuamente meu valor ou corresponder à imagem que construí do homem ideal.
Da mesma forma, eu não existo para satisfazer todas as necessidades emocionais dele.
Isso não significa que não precisemos uns dos outros. Precisamos.
O ser humano é relacional. Somos chamados ao encontro, à amizade, ao amor, à família e à entrega. O problema não está em precisar do outro; está em transformar o outro na resposta para aquilo que somente uma vida pessoalmente assumida pode resolver.
É possível entrar no casamento esperando que finalmente alguém nos faça sentir importantes, bonitas, seguras, escolhidas ou suficientes.
E então o casamento se torna uma espécie de prova permanente.
“Se ele fizer isso, significa que me ama.”
“Se não fizer, significa que não me valoriza.”
“Se ele não me trata como espero, estou recebendo menos do que mereço.”
Nesse momento, já não estamos olhando apenas para o homem real diante de nós. Estamos comparando esse homem com uma imagem.
E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de reconhecer dentro de um casamento: às vezes, o problema não é que o outro seja indigno; é que a nossa expectativa perdeu contato com a realidade.
O outro é uma pessoa real
Amar uma pessoa real exige uma maturidade diferente daquela exigida para amar uma expectativa.
A expectativa não ronca, não esquece, não se irrita, não tem um dia ruim, não possui uma história familiar complicada, não tem limitações de personalidade.
A pessoa real tem tudo isso.
E é justamente por isso que o amor conjugal precisa de virtudes.
Se eu não consigo suportar que meu marido seja diferente de mim, precisarei transformá-lo.
Se não consigo suportar suas limitações, tentarei corrigi-lo o tempo inteiro.
Se interpreto toda falha como falta de amor, viverei permanentemente ferida.
Se acredito que mereço estar sempre satisfeita, qualquer renúncia parecerá uma violência contra mim.
Mas o casamento não é um lugar onde deixamos de encontrar limites. É justamente um dos lugares onde os limites da realidade se tornam mais evidentes.
E isso não é necessariamente ruim.
Pode ser uma oportunidade extraordinária de amadurecimento.
“Não aceite menos” precisa voltar para a realidade
Talvez a pergunta mais importante não seja:
“Estou aceitando menos do que mereço?”
Mas:
“O que está objetivamente acontecendo?”
Há diferença entre um marido que ocasionalmente falha e um marido que sistematicamente humilha.
Entre um homem que não percebe uma necessidade e outro que deliberadamente a ignora.
Entre uma esposa que precisa ensinar ao marido como determinadas atitudes a afetam e uma relação na qual não existe nenhuma disposição para escutar.
Entre uma dificuldade conjugal e uma situação de violência.
O discernimento começa quando deixamos de julgar apenas pela intensidade do que sentimos e começamos a olhar para a realidade.
Isso não significa desconfiar dos próprios sentimentos. Eles importam. A dor de uma mulher merece ser escutada.
Mas sentir-se ferida não responde, sozinho, à pergunta sobre o que aconteceu.
A dor informa. O discernimento interpreta.
E é aí que uma mulher começa a amadurecer.
Há coisas que você não deve aceitar
Sim, existem coisas que uma mulher não deve aceitar.
Ela não deve aceitar ser violentada.
Não deve aceitar humilhação sistemática.
Não deve aceitar controle abusivo.
Não deve aceitar ser tratada deliberadamente como inferior.
Não deve aceitar uma relação na qual sua dignidade é constantemente destruída.
Mas existe outra lista, menos popular, que também precisamos aprender a fazer.
Coisas que talvez precisemos aceitar porque fazem parte da realidade humana:
Que nosso marido tem limites.
Que ele não pensa como nós.
Que ele pode não perceber imediatamente aquilo que percebemos.
Que algumas mudanças levam tempo.
Que uma relação profunda exige conversas difíceis.
Que haverá períodos de maior sacrifício.
Que nem sempre receberemos na mesma proporção em que oferecemos naquele dia, naquele mês ou naquele ano.
Que amar alguém também significa conviver com uma pessoa que ainda está se tornando quem pode ser.
Aceitar essas coisas não significa ser conformada, significa não exigir da realidade aquilo que a realidade não pode oferecer.
A mulher também precisa perguntar: “O que eu estou oferecendo?”
Há uma consequência ainda mais profunda desse pensamento.
Quando uma mulher aprende apenas a perguntar “o que eu mereço?”, corre o risco de olhar para o casamento exclusivamente a partir daquilo que deve receber.
A pergunta antropologicamente mais completa é:
“Que tipo de pessoa estou me tornando nesta relação?”
E depois:
“Que tipo de esposa estou sendo?”
Não para culpá-la por aquilo que o marido faz, mas porque a maturidade começa quando eu reconheço que também sou responsável pela pessoa que estou me tornando.
Posso exigir respeito e, ao mesmo tempo, aprender a respeitar.
Posso desejar ser ouvida e aprender a ouvir.
Posso querer um marido generoso e perguntar onde preciso crescer na generosidade.
Posso desejar delicadeza e perceber se eu mesma me tornei excessivamente crítica.
Isso não elimina a responsabilidade do outro.
Apenas devolve a cada pessoa aquilo que lhe pertence: a responsabilidade pela própria existência.
Talvez você não precise aceitar menos. Talvez precise desejar melhor.
Essa talvez seja a pergunta que mais me interessa quando escuto a frase “não aceite menos do que você merece”.
Porque uma mulher pode aprender a não aceitar menos e, ainda assim, continuar sem saber o que realmente vale a pena desejar.
Por isso, amadurecer não é simplesmente elevar a régua das exigências.
É aprender a ordenar os desejos segundo a realidade e segundo os bens que realmente importam.
Nem tudo o que eu desejo é um direito.
Nem tudo o que me frustra é uma injustiça.
Nem tudo o que dói deve ser eliminado.
E nem tudo o que é difícil deve ser abandonado.
Há sofrimentos que precisam ser interrompidos. Há sofrimentos que precisam ser atravessados. Há conflitos que precisam ser resolvidos. Há outros que precisam ser aceitos como parte da convivência entre pessoas imperfeitas.
Saber a diferença é uma forma de maturidade.
Então, o que uma mulher realmente merece?
Ela merece aquilo que é devido à sua dignidade de pessoa.
Merece respeito.
Merece ser tratada como pessoa e não como objeto.
Merece segurança e liberdade diante de relações abusivas.
Merece fidelidade dentro do compromisso que assumiu.
Merece consideração, verdade e responsabilidade.
Mas ela não merece um casamento sem frustrações.
Não merece um marido sem defeitos.
Não merece que suas necessidades sejam sempre compreendidas sem que precise comunicá-las.
Não merece uma vida na qual nunca precise renunciar.
Porque isso não é casamento. Isso é fantasia.
E talvez a maturidade conjugal comece justamente quando deixamos de perguntar apenas “o que eu mereço?” e começamos a perguntar:
“O que é devido a mim, o que é devido ao outro, o que a realidade está me pedindo e que tipo de pessoa eu quero me tornar diante disso?”
“Não aceite menos do que você merece” pode continuar sendo um bom conselho.
Mas talvez precise de uma segunda parte:
Não aceite menos do que é devido à sua dignidade. Mas também não exija da vida aquilo que pertence apenas às suas expectativas.
Porque uma mulher madura não é aquela que aceita tudo.
E também não é aquela que exige tudo.
É aquela que aprendeu a discernir.
Com amor
Sua terapeuta
