É hora de os homens voltarem para casa

Penso que uma das perguntas mais interessantes que possamos fazer quando observamos os filmes, as séries, os desenhos e até os videogames de uma época seja esta: que tipo de homem essa sociedade está ensinando seus filhos a admirar?

A ficção não é apenas entretenimento. Ela também participa da formação do imaginário. Antes mesmo de uma criança conseguir explicar o que é autoridade, coragem, responsabilidade, casamento ou paternidade, ela já viu homens fazendo alguma coisa diante dos seus olhos. O pai pode ser aquele que chega em casa e coloca ordem na mesa de jantar, o homem que não sabe trocar uma fralda, o sujeito que atravessa o mundo para salvar o filho ou aquele que se ajoelha no chão para brincar com as crianças. Essas imagens não são neutras. Elas oferecem, ainda que de maneira silenciosa, uma ideia do que significa ser homem.

Não é preciso imaginar que roteiristas e produtores estejam conscientemente tentando educar uma geração. Basta reconhecer algo mais simples: toda cultura apresenta imagens daquilo que considera admirável, ridículo, ultrapassado, desejável ou perigoso. E, quando essas imagens se repetem durante anos, acabam compondo um imaginário.

Por isso, observar como o pai aparece nas histórias é também observar como uma sociedade está pensando a masculinidade.

O pai como imagem de ordem

O problema com a figura paterna é tão antigo quanto a própria civilização. Na mitologia grega, a sucessão entre Urano, Cronos e Zeus já apresenta uma relação problemática entre pais e filhos: o pai pode transmitir a vida e, ao mesmo tempo, tornar-se aquele que impede o filho de ocupar seu lugar no mundo; o filho pode enfrentar o pai e, depois, correr o risco de repetir aquilo que recebeu.

O mito é brutal, mas toca em algo profundamente humano. O pai não é apenas aquele que gera. A figura paterna carrega, em muitas culturas, uma relação com origem, autoridade, limite, transmissão e ordem. O filho recebe algo que veio antes dele e precisa aprender o que fazer com aquilo.

É por isso que a ausência ou a deformação da figura paterna não é uma questão pequena. Quando uma geração deixa de encontrar imagens de homens adultos capazes de assumir responsabilidades, transmitir experiência e ocupar seu lugar na família, não desaparece apenas um personagem. Enfraquece-se uma possibilidade de imaginar o próprio crescimento.

E é aqui que a questão deixa de ser apenas cultural e passa a ser antropológica.

O que significa tornar-se homem?

O menino precisa imaginar o homem que poderá se tornar

Uma criança não aprende apenas por explicações. Aprende também por imitação, identificação e experiência. Antes de formular conceitos, ela observa pessoas concretas e personagens que encarnam possibilidades de vida.

Por isso, uma boa história pode fazer muito mais do que divertir. Pode mostrar a um menino que a força serve para proteger, que uma promessa cria responsabilidade, que o fracasso não precisa ser motivo para desistir, que uma pessoa mais velha pode ensinar alguma coisa e que crescer significa tornar-se capaz de responder por aquilo que está sob sua responsabilidade.

Talvez seja justamente isso que muitas histórias antigas faziam tão bem.

O herói começava incompleto. Precisava treinar, fracassar, ouvir alguém mais experiente, vencer o medo e adquirir capacidades. Não era admirado apenas porque era poderoso, mas porque aprendia a colocar sua força a serviço de alguma coisa maior do que ele mesmo.

Essa estrutura aparece em histórias muito diferentes entre si. Em Karate Kid, há disciplina e relação com um mestre. Em Conta Comigo, amizade, medo, perda e passagem para outra etapa da vida. Em Os Goonies, coragem, lealdade e pertencimento. Até em narrativas fantásticas como Dragon Ball, existe repetidamente a ideia de treinamento, esforço, fracasso e superação.

O menino recebia uma mensagem simples, mas poderosa: você ainda não é aquilo que pode ser. E justamente por isso precisa crescer.

O que acontece quando o pai muda de lugar?

A representação do pai foi mudando.

Em determinados momentos da cultura ocidental, encontramos a imagem do pai provedor, autoridade da casa, homem respeitado e centro moral da família. Essa imagem também carregava problemas: podia ser rígida, distante e pouco disponível emocionalmente.

Depois, a cultura começou a corrigir essa figura. O homem precisava entrar em casa de outra maneira. Precisava trocar fraldas, cozinhar, brincar, conversar e participar da criação dos filhos. Essa transformação trouxe ganhos reais, porque presença paterna não deveria ser reduzida ao sustento financeiro.

Mary Poppins oferece uma imagem interessante dessa passagem. George Banks começa como um homem preocupado com trabalho, dinheiro, horários e autoridade. Aos poucos, percebe que sua família não precisa apenas de ordem externa; precisa da sua presença. Ele precisa voltar a olhar para os filhos e perceber que a infância deles está passando.

A transformação é bonita porque não exige que ele deixe de ser homem. Exige que descubra uma forma mais humana de exercer sua paternidade.

O problema começa quando, na tentativa de corrigir os excessos da autoridade, a própria autoridade passa a ser tratada como algo suspeito.

Quando podemos rir do pai

É impossível falar dessa transformação sem lembrar de Homer Simpson.

O pai que antes sabia é substituído pelo pai que frequentemente não sabe. Homer é impulsivo, desajeitado, irresponsável em muitas situações e, não raro, são os próprios filhos que precisam lidar com as consequências de suas decisões.

Há algo de culturalmente significativo nisso. Podemos rir do pai. Ele deixa de ser uma figura diante da qual todos precisam permanecer em silêncio.

Mas existe uma característica de Homer que considero importante: ele continua pertencendo à casa.

Ele volta.

Ele está ali.

A família continua sendo o lugar para o qual retorna.

Acredito que essa representação tenha cumprido uma função de correção: o pai não precisava mais ser uma autoridade distante e intocável. Podíamos enxergar seus defeitos, rir deles e reconhecer sua humanidade.

Mas uma pergunta permanece: se o pai deixa de ser temido, ele ainda consegue ser respeitado?

Essa pergunta não exige que escolhamos entre medo e permissividade. Ela nos obriga a pensar em uma autoridade diferente, aquela que não precisa humilhar para ser firme e que não precisa controlar para ser presente.

O pai guerreiro também não resolve tudo

Em outro momento, especialmente no cinema de ação, surge uma figura masculina quase oposta: o pai superpoderoso, capaz de atravessar qualquer obstáculo para salvar o filho.

Busca Implacável é um exemplo evidente. O pai se torna o homem que sabe lutar, perseguir, proteger e destruir qualquer ameaça que esteja entre ele e a filha.

É uma imagem poderosa, mas novamente incompleta.

Porque uma criança não precisa apenas de um homem capaz de enfrentar seus inimigos. Ela precisa de um homem capaz de viver com ela.

Precisa de alguém que saiba conversar, ensinar, brincar, corrigir, ouvir e permanecer.

A força masculina encontra seu sentido mais profundo quando sabe para que existe.

Talvez por isso Bandit seja uma imagem tão interessante

Em Bluey, Bandit é um pai muito diferente.

Ele brinca com as filhas, entra nas fantasias delas, corre pela casa, erra, perde a paciência, pede desculpas e tenta novamente. Não é perfeito e não precisa ser.

O interessante é que ele consegue ser afetuoso sem se tornar infantilizado e consegue exercer autoridade sem transformar a casa em um quartel.

Ele pode dizer não e, pouco depois, deitar no chão para brincar.

Pode brincar de maneira absolutamente ridícula e continuar sendo o adulto da relação.

Essa combinação é importante porque nos ajuda a recuperar uma ideia que às vezes se perde no debate contemporâneo: masculinidade e ternura não são opostas. Autoridade e afeto também não.

Um homem precisa ser firme, mas quando fala com sua filha pode ser mais delicado. 

Ser proteger e acolher, trabalhar e brincar,  ser forte o suficiente para sustentar uma situação difícil e sensível o suficiente para perceber quando o filho precisa de colo.

O homem pode integrar os dois lados e não escolher um extremo, que esteja faltando em muitas representações.

E então o pai volta a ser protagonista

Não é por acaso que algumas narrativas contemporâneas colocam a relação entre pai e filho no centro da história.

Em Interestelar, a viagem de Cooper pelo espaço está profundamente ligada ao desejo de voltar para a filha. Em God of War, Kratos precisa aprender a exercer a paternidade enquanto enfrenta sua própria história. Em The Last of Us, a relação entre Joel e Ellie transforma uma narrativa de sobrevivência em uma história sobre vínculo, responsabilidade, perda e amor.

São homens que precisam aprender alguma coisa, não apenas lutar.

Precisam aprender a amar, a sacrificar-se, proteger,  permanecer, voltar.

Vamos para a literatura antiga.

Telêmaco não queria matar o pai. Queria que o pai voltasse

Na Odisseia, Telêmaco cresce praticamente sem Odisseu. O pai partiu para a Guerra de Troia quando ele ainda era pequeno e, durante sua ausência, a casa começa a ser ocupada pelos pretendentes de Penélope.

Telêmaco ainda não tem força suficiente para reorganizar sozinho aquilo que está acontecendo.

Então ele parte em busca de notícias do pai.

A sua jornada é também uma jornada de amadurecimento. Ele procura Odisseu, mas, no caminho, encontra outros homens que podem lhe transmitir experiência e referência. Nestor e Menelau participam dessa formação.

É como se o filho precisasse encontrar o pai, mas também precisasse encontrar homens que lhe mostrem o que significa tornar-se homem.

E, quando Odisseu finalmente retorna, ele não aparece inicialmente como o rei glorioso que todos esperavam. Volta disfarçado, sem aparência de poder.

A autoridade não está na imagem, está na pessoa.

Quando pai e filho finalmente se reconhecem, começam a agir juntos para recuperar a ordem da casa.

A imagem de Telêmaco olhando para o mar para mim é poderosa. Ele não está simplesmente tentando livrar-se do pai. Está perguntando:

Onde está meu pai?

Essa é a pergunta do nosso tempo

Onde estão os homens?

Não necessariamente os homens fisicamente. Mas onde está a figura do homem que assume responsabilidade pela própria casa? Onde está aquele que sabe dizer não, que consegue amar sem infantilizar, que protege sem controlar, que trabalha sem transformar o trabalho em justificativa para a ausência?

Onde está o homem que consegue brincar com o filho sem deixar de ser pai? Que consegue reconhecer um erro sem perder autoridade? Que consegue pedir perdão sem entender isso como humilhação? Que sabe que sua mulher não precisa de mais um filho para cuidar, mas de um marido com quem possa compartilhar a vida?

A resposta não é voltar ao pai autoritário de outras décadas, nem manter o pai permanentemente infantilizado ou reduzido à função de provedor.

O desafio é mais exigente: recuperar a autoridade sem recuperar a tirania, a presença sem recuperar o autoritarismo, a força sem perder a ternura.

Na perspectiva da antropologia filosófica, isso significa compreender que autoridade não é simplesmente poder sobre alguém. Ela pode ser entendida como uma responsabilidade diante de alguém. O homem adulto não exerce autoridade porque é superior à mulher ou aos filhos, mas porque recebeu responsabilidades concretas que exigem dele maturidade, prudência, serviço e capacidade de responder pelo que lhe foi confiado.

É uma autoridade que começa dentro da própria pessoa.

Antes de ordenar a casa, o homem precisa aprender a ordenar a si mesmo.

O pai que volta para casa

Talvez seja isso que algumas das melhores histórias contemporâneas estejam tentando recuperar.

O pai que atravessa o espaço para voltar à filha. O homem que precisa aprender a ser pai. O pai que brinca no chão. O homem que, depois de lutar contra monstros, precisa voltar para casa e aprender a conversar com o filho.

Eu penso que  é isso que uma família precise, Não de um homem perfeito, invencível ou emocionalmente impenetrável, mas de um homem presente.

Uma presença com atenção, autoridade e afeto.

Há uma imagem da Ilíada que continua sendo difícil de esquecer: antes de voltar para a batalha, Heitor retira o capacete porque o filho se assusta. Ele se aproxima, pega a criança nos braços e a ergue diante dos deuses.

O guerreiro não deixa de ser forte quando abaixa o capacete.

Ele não deixa de ser homem quando abraça o filho.

Ao contrário: sua força encontra o seu sentido.

Eu acredito que nossos meninos precisem novamente de histórias assim.

Histórias em que o homem seja forte sem ser bruto, sensível sem ser frágil, firme sem ser tirano, protetor sem ser controlador. Histórias em que o menino possa imaginar que crescer não significa apenas ganhar liberdade, mas tornar-se capaz de responder por aquilo que ama.

Porque uma casa não precisa apenas de um homem dentro dela.

Precisa de um homem que esteja verdadeiramente presente nela.

Ah, e eu imagino que seja isso que Telêmaco esteja esperando há milhares de anos.

Não um homem perfeito, invencível, que nunca erra, mas um pai que volte para casa. 

E depois de tudo isso, a pergunta não é apenas onde estão os homens, mas que lugar o homem ocupa hoje dentro da sua própria casa.

Olhe para o seu casamento. Olhe para o homem que está ao seu lado. Olhe também para a mulher que você mesma se tornou. Há algo que você tem tentado compensar, controlar ou carregar sozinha? Há um lugar que você gostaria que seu marido ocupasse, mas que talvez nunca tenha sido verdadeiramente construído entre vocês?

E há uma pergunta ainda mais importante: que tipo de homem seus filhos estão aprendendo a admirar dentro da própria família?

Não é preciso ter todas as respostas para começar. Às vezes, o primeiro passo é simplesmente parar de repetir os mesmos padrões e compreender com mais clareza o que está acontecendo dentro da própria casa.

Se você percebe que seu casamento está pedindo esse amadurecimento — não apenas do seu marido, mas também de você —, a terapia pode ser um espaço para olhar para tudo isso com mais profundidade, responsabilidade e realidade.

Se você quer compreender melhor o seu lugar como mulher, esposa e mãe, e construir relações mais maduras, entre em contato comigo para conversarmos sobre o seu momento.

 

Com amor

Sua terapeuta