“Fico perdida entre casa e trabalho… parece que não consigo fazer bem nenhum dos dois.”
Talvez você conheça essa sensação. Está no trabalho, mas pensa no que deixou por fazer em casa. Está com os filhos, mas se lembra das pendências profissionais. Tenta cuidar do casamento, da família, da casa e da própria vida, mas termina o dia com a impressão de que ficou devendo em todos os lugares.
Você quer fazer bem as coisas. Quer ser uma boa mãe, uma boa esposa, uma profissional competente. Quer oferecer o melhor à sua família e não desperdiçar os talentos que recebeu. Não há nada de errado nesse desejo. Pelo contrário, buscar a excelência é reconhecer que as coisas importam e que vale a pena nos dedicarmos a elas.
A dificuldade começa quando você deixa de buscar o melhor que pode oferecer e passa a exigir que tudo esteja sempre perfeito, como se qualquer falha revelasse uma insuficiência sua.
Existe uma diferença entre desejar a perfeição e ser perfeccionista. A perfeição, compreendida como horizonte de um bem que ultrapassa nossas limitações, pode nos colocar em movimento. Ela nos recorda que não fomos feitos apenas para cumprir tarefas, manter tudo funcionando ou receber aprovação. Há algo maior a buscar, uma vida que merece ser ordenada, um amor que precisa amadurecer, uma família que desejamos conduzir em direção ao bem.
O perfeccionismo, por outro lado, pode nos prender àquilo que conseguimos controlar. Queremos que a casa esteja em ordem, que os filhos se comportem como esperamos, que o trabalho renda, que o casamento corresponda às nossas expectativas e que ninguém perceba nosso cansaço. Já não buscamos fazer bem o que nos cabe; queremos eliminar tudo aquilo que nos recorda que somos limitadas.
Mas a vida real não se comporta como uma vitrine. Os filhos adoecem, os planos mudam, o trabalho exige mais do que prevíamos e o casamento atravessa fases em que a proximidade precisa ser reconstruída. Há dias em que uma responsabilidade ocupará o espaço de outra, e nem sempre será possível oferecer a cada uma delas tudo o que gostaríamos.
Isso não significa abandonar a excelência nem se acomodar à desordem. Significa aprender a discernir. Às vezes, fazer o melhor será concluir uma tarefa com dedicação; em outras, será interrompê-la para cuidar de um filho. Pode ser necessário rever a organização da casa, pedir ao marido uma participação mais efetiva ou reconhecer que uma rotina se tornou insustentável. Aceitar os limites da realidade não nos dispensa de agir sobre aquilo que pode ser mudado.
A pergunta, então, não é simplesmente como dar conta de tudo, mas a serviço de que bem estou tentando dar conta de tudo?
Quero uma casa impecável para acolher minha família ou preciso que ela esteja impecável para me sentir uma mulher capaz? Quero crescer profissionalmente porque reconheço o valor do meu trabalho ou já não consigo descansar sem sentir culpa? Quero cuidar dos meus filhos para ajudá-los a crescer ou espero que tudo o que faço por eles confirme que sou uma boa mãe?
Nem sempre nossas motivações estão puras, e não precisamos nos condenar por isso. Precisamos aprender a examiná-las com honestidade. Às vezes, por trás de um desejo legítimo de fazer o bem, existe também o medo de falhar, de decepcionar alguém ou de não corresponder à imagem que construímos de nós mesmas.
Talvez a mudança comece quando deixamos de medir a vida apenas pelo que conseguimos realizar e voltamos a perguntar que tipo de pessoa estamos nos tornando enquanto realizamos tantas coisas.
Se você deseja oferecer uma vida boa aos seus filhos, lembre-se de que eles não precisam apenas de uma casa organizada ou de uma mãe eficiente. Precisam também de uma mulher que aprenda a amar, a corrigir os próprios erros, a pedir perdão, a reconhecer seus limites e a ordenar as escolhas em função daquilo que realmente importa. Se deseja um casamento bom, não basta que as tarefas estejam divididas e a rotina funcione; é preciso que exista um esforço contínuo para crescer no amor.
E, se a sua fé faz parte da maneira como você compreende a vida, talvez exista uma pergunta ainda mais profunda: tudo isso que estou tentando construir está me aproximando de Deus? A vida que desejo oferecer à minha família é apenas uma vida confortável e bem organizada ou uma vida orientada para um bem que não termina nas coisas que podemos ver?
Essa pergunta não se responde de uma vez. Exige tempo, oração, amadurecimento e uma disposição sincera para rever as próprias intenções. Não é uma fórmula para eliminar o cansaço, tampouco uma cobrança espiritual a acrescentar às tantas que você já carrega. É um horizonte que, aos poucos, pode ajudar a colocar cada coisa em seu devido lugar.
Você não precisa deixar de desejar o melhor. Precisa aprender a reconhecer o que é verdadeiramente melhor, em cada circunstância, e oferecer a isso a sua dedicação. Algumas vezes, a excelência estará em fazer mais; em outras, em renunciar a algo bom para cuidar de um bem maior. E haverá momentos em que será necessário admitir que você fez o que podia, com os recursos que tinha, e continuar caminhando.
Uma vida excelente não é uma vida sem falhas. É uma vida que busca o bem com seriedade, reconhece a realidade sem fugir dela e aceita ser transformada ao longo do caminho.
Talvez você não consiga colocar tudo em ordem neste domingo. Mas pode começar por uma pergunta: entre tantas coisas que exigem sua atenção, qual delas merece, hoje, o melhor de você?
Não para provar que você dá conta de tudo. Mas para que, pouco a pouco, a sua vida se aproxime daquilo que você reconhece como digno de ser amado.
