A responsabilidade de ordenar o caos: por que assumir responsabilidades traz estabilidade

 

Vivemos em uma época em que muitas pessoas desejam estabilidade, mas nem sempre percebem que estabilidade não significa viver em um ambiente perfeitamente organizado.

Esperamos que o casamento esteja bem para conseguirmos ficar bem. Que os filhos se comportem para conseguirmos ter paz. Que o trabalho esteja sob controle para conseguirmos descansar. Que as pessoas ao nosso redor façam sua parte para que, então, possamos nos sentir seguros.

Mas e quando a realidade não se organiza conforme as nossas necessidades?

Talvez seja justamente aí que comece a maturidade.

O mundo não será organizado sob medida para nós

A vida não foi feita para se ajustar permanentemente ao nosso estado interior.

Haverá desordem na casa, imprevistos no trabalho, conflitos no casamento, filhos que exigem mais do que esperávamos, pessoas que não cumprem aquilo que deveriam cumprir e situações que não poderemos simplesmente resolver.

Esperar que o mundo externo se organize primeiro para que só depois possamos encontrar estabilidade é entregar às circunstâncias o governo da nossa vida.

Uma pessoa madura precisa construir dentro de si um núcleo de critérios, vontades, valores e estabilidade a partir do qual possa responder ao que acontece.

Isso não significa controlar tudo.

Significa não depender de que tudo esteja sob controle para conseguir agir bem.

Existe uma diferença importante entre querer ordem e exigir que a realidade esteja sempre em ordem para que eu consiga viver.

A responsabilidade de ordenar o que está ao nosso alcance

Há uma situação curiosa na vida doméstica: muitas vezes, somos nós que percebemos primeiro que alguma coisa está desorganizada.

Percebemos que determinada conversa precisa acontecer, que as contas precisam ser organizadas, que uma rotina familiar não está funcionando, que existe uma tensão entre os filhos, que alguma decisão está sendo adiada.

E podemos reagir de duas maneiras: nos ressentindo

Ou fazendo uma pergunta mais adulta:

“Se eu fui capaz de perceber esse problema, o que está ao meu alcance fazer a respeito dele?”

Isso não significa assumir todas as responsabilidades da casa ou carregar aquilo que pertence aos outros. Existe uma diferença entre responsabilidade e sobrecarga.

Mas também precisamos reconhecer que perceber uma desordem e ter condições de agir diante dela pode nos colocar diante de uma responsabilidade concreta.

A maturidade não pergunta apenas quem deveria ter feito.

Ela também pergunta:

“O que eu posso fazer agora?”

Responsabilidade exige trabalho

Existe uma ideia bastante difundida de que, quando encontramos a nossa estabilidade emocional, naturalmente conseguiremos viver melhor, mas estabilidade não é apenas uma experiência subjetiva.

Ela também se constrói por meio de ações. É preciso planejar, conversar, negociar, organizar, decidir, executar. Algumas vezes será necessário abrir mão do conforto, do tempo livre ou daquilo que gostaríamos de fazer naquele momento.

Uma mãe pode precisar reorganizar sua rotina para atender uma necessidade dos filhos.

Uma esposa pode precisar iniciar uma conversa difícil em vez de esperar que o marido perceba sozinho.

Uma empresária pode precisar tomar uma decisão que preferiria adiar.

Em todos esses casos, existe uma dimensão de coragem.

Porque assumir responsabilidade significa aceitar que a realidade exige alguma coisa de nós. E nem sempre aquilo que a realidade exige é agradável. 

Aquilo que mais nos desestabiliza pode estar pedindo uma resposta

Há situações diante das quais passamos meses reclamando.

Sabemos que alguma coisa precisa mudar, mas permanecemos esperando que o outro, o tempo ou as circunstâncias façam o trabalho por nós.

Enquanto isso, continuamos submetidos àquilo que nos incomoda.

Assumir responsabilidade produz um movimento diferente: eu paro de esperar passivamente que a circunstância mude e começo a me posicionar diante dela.

Não agir também é uma escolha

Existe uma frase que resume bem essa ideia:

“Aquilo que você não muda, você escolhe.”

Não significa que tudo aquilo que permanece em nossa vida seja resultado de uma escolha consciente. Existem circunstâncias que não escolhemos e problemas que não conseguimos resolver imediatamente.

Mas há uma verdade incômoda nessa frase: quando temos possibilidade real de agir e deliberadamente escolhemos não agir, também estamos escolhendo a permanência daquela situação.

Aquilo que você não se propõe a consertar continuará quebrado.

Porque, quando reconhecemos nossa participação na realidade, também recuperamos uma parte importante da nossa liberdade.

Responsabilidade não é controlar tudo

É importante fazer uma distinção.

Assumir responsabilidade não significa acreditar que tudo depende de nós.

Não somos responsáveis pelas escolhas de outras pessoas. Não podemos controlar a reação do marido, o comportamento dos filhos, as decisões de um funcionário ou as circunstâncias econômicas.

A responsabilidade madura começa justamente quando aprendemos a separar:

o que depende de mim, o que depende do outro e aquilo que simplesmente preciso aprender a suportar.

Isso evita dois extremos.

De um lado, a passividade: “não posso fazer nada”.

Do outro, a onipotência: “tudo depende de mim”.

Nenhum dos dois corresponde à realidade.

A pessoa madura procura aquilo que efetivamente está sob sua responsabilidade e age ali.

A ordem começa de dentro para fora

Penso que essa é a questão mais profunda. Queremos organizar a casa, o casamento, os filhos, o trabalho e a vida. Mas a primeira ordem que precisamos buscar é interior.

Uma pessoa governada por impulsos, ressentimentos, medos e expectativas dificilmente conseguirá ordenar bem aquilo que está fora dela.

Por isso, antes de perguntar:

“Como faço para mudar tudo ao meu redor?”

pergunte-se

“Como estou respondendo ao que a realidade está me apresentando?”

Tenho coragem para agir?

Tenho prudência para escolher o momento certo?

Consigo suportar algum desconforto sem fugir?

Consigo reconhecer aquilo que é minha responsabilidade sem assumir aquilo que pertence ao outro?

Consigo fazer o que precisa ser feito mesmo quando não estou com vontade?

Essas perguntas nos colocam diante de algo muito maior do que organização. Colocam-nos diante da formação da pessoa.

Porque amadurecer não é conseguir construir uma vida sem problemas, é tornar-se alguém capaz de responder adequadamente aos problemas que a vida apresenta.

E talvez seja por isso que a responsabilidade, embora muitas vezes pareça um peso, possa ser também um caminho para a estabilidade.

Quando deixamos de esperar que o mundo se organize para finalmente conseguirmos viver e começamos a nos posicionar diante daquilo que nos cabe, alguma coisa muda. A realidade continua sendo a mesma, mas nós já não estamos diante dela como quem apenas sofre suas consequências, estamos diante dela como alguém que pode responder, agir e construir.

E, muitas vezes, é justamente aí que começa a verdadeira estabilidade.

Com amor

Sua terapeuta