Por que pequenas discussões no casamento se tornam grandes brigas? Aprenda a recuperar a sintonia
Uma viagem começa com um pneu murcho.
O marido olha para o carro e diz:
— Vou até o posto e encho.
A esposa olha para o pneu e responde:
— Acho melhor trocar. Você não está vendo como ele está murcho?
Parece uma situação banal, né?
Mas, em poucos minutos, aquilo pode se transformar em uma grande discussão no casamento.
Ele pode começar a pensar que ela sempre complica tudo.
Ela pode começar a pensar que ele nunca leva suas preocupações a sério.
E, quando percebem, já não estão mais discutindo sobre o pneu, estão discutindo sobre quem tem razão.
É assim que muitas brigas no casamento começam, não necessariamente com grandes problemas, mas com pequenas situações nas quais o casal perde a sintonia e, em vez de voltar à realidade, começa a defender a própria posição.
O problema não é discordar
Marido e mulher vão discordar, é natural, são duas pessoas diferentes, com histórias diferentes, temperamentos diferentes e maneiras diferentes de perceber a realidade.
O problema não está na discordância, está na maneira como lidamos com ela.
Olhando para a vida cotidiana, quero que observe a diferença enorme entre:
“Eu não estou enxergando dessa forma. Vamos pensar juntos.”
e:
“Você não está entendendo.”
Na primeira situação, os dois continuam diante do problema, na segunda, começa uma disputa entre os dois.
Parece pequeno, mas a postura que é levada na relação muda tudo.
Se a postura não for mudada, uma pequena discordância pode se transformar em uma grande briga.
Quando o casamento vira uma disputa por razão
Talvez uma das perguntas mais importantes que uma pessoa casada possa fazer durante um conflito seja:
“Eu quero resolver o problema ou quero provar que estou certa?”
Essa pergunta incomoda porque, muitas vezes, a resposta não é tão bonita quanto gostaríamos.
Quantas vezes você não quis que ele reconhecesse sua opinião primeiro, ou que ele admita que sua solução era melhor?
Mas o casamento não é um debate.
Quando marido e mulher entram constantemente na lógica de vencedor e perdedor, mesmo aquele que “ganhou” uma discussão pode sair dela tendo perdido alguma coisa muito mais importante, como a admiração do outro, ter deixado o outro emocionalmente mais distante.
Então vale perguntar:
Quanto vale ter razão quando o preço é a perda da unidade?
Estar certa pode ser importante.
Mas ter razão não dá o direito de humilhar, diminuir ou tratar o outro como alguém inferior.
A verdade precisa caminhar junto com a caridade.
Muitas vezes, a soberba entra pela porta dos fundos
Existe algo ainda mais profundo por trás de muitas discussões conjugais: nossa dificuldade de admitir que não sabemos tudo.
Você não tem razão sobre tudo.
Seu marido também não.
Você pode estar enxergando uma parte da realidade que ele não percebeu.
E ele pode estar percebendo alguma coisa que você não conseguiu enxergar.
Isso não diminui nenhum dos dois, ao contrário, a humildade permite que duas inteligências diferentes se encontrem diante da mesma realidade.
A soberba faz o contrário – e essa pedrada vai doer.
A soberba nos convence de que precisamos corrigir tudo, opinar sobre tudo, controlar tudo e ter uma resposta para tudo.
E então uma conversa sobre um pneu se transforma em uma disputa de poder.
É aqui que precisamos de uma avaliação sincera:
Estou tentando ajudar meu marido ou estou tentando vencer meu marido?
A importância de tomar distância durante um conflito
Quando o casal percebe que está saindo de sintonia, continuar falando nem sempre é a melhor escolha, gosto de ensinar às minhas pacientes que uma pequena distância pode salvar o momento.
Entenda, não é abandono, não é tratamento de silêncio, nada disso. Trata-se de uma distância interior suficiente para que você deixe de enxergar a situação apenas de dentro da própria emoção.
Imagine, por alguns instantes, que um amigo sensato estivesse sentado ao seu lado. Ele conhece vocês, ama vocês e sabe que vocês se amam. Ele viu tudo o que aconteceu, o que acha que ele diria para vocês?
Talvez você perceba que está exagerando, ou que seu marido também exagerou. Podem encontrar uma solução mais simples do que imaginavam. Enfim, podem com esse exercício ampliar a visão e reagindo de outra forma.
Quando estamos no calor da discussão, tendemos a interpretar tudo em primeira pessoa:
“Ele está fazendo isso comigo.”
“Ela nunca me escuta.”
“Ele sempre faz isso.”
Quando conseguimos tomar alguma distância, começamos a enxergar a cena:
“Nós dois estamos cansados.”
“Nós dois estamos levando isso a sério demais.”
“Estamos tentando resolver um problema, mas acabamos transformando um no outro em problema.”
Isso é maturidade emocional.
Nem toda discussão precisa ser resolvida imediatamente
Existe uma fantasia comum no casamento de que todo conflito precisa ser resolvido naquele exato momento. MITO!
Há conversas que precisam de tempo, de barriga cheia, de banho e descanso, e até mesmo uma boa noite de sono.
Às vezes, a atitude mais madura é dizer:
“Nós precisamos conversar sobre isso, mas agora não estamos conseguindo conversar bem. Vamos retomar quando estivermos mais tranquilos.”
Reconhecer os limites de ambos: ele com fome fica insuportável, eu cansada só dou patada. Então vocês preservam o respeito e a admiração, dando esse tempo.
Essa pausa não é uma arma contra o outro, é uma forma de proteger aquilo que vocês estão tentando construir.
O humor também precisa voltar para dentro do casamento
Existe uma forma de humor que não ridiculariza, não humilha e não ironiza o outro. É aquele humor que permite que duas pessoas percebam que, às vezes, estão levando uma situação pequena a sério demais.
Imagine voltar para o exemplo do pneu.
Depois de alguns minutos de discussão, um dos dois poderia olhar para o outro e dizer:
— Acho que estamos quase terminando nosso casamento por causa de um pneu.
Talvez os dois riam.
E, naquele momento, a realidade volta a ocupar o lugar que havia sido tomado pelo orgulho.
O humor saudável cria intimidade.
Pequenos apelidos carinhosos, brincadeiras que só o casal entende, histórias compartilhadas e a capacidade de rir de algumas situações da vida ajudam a construir uma atmosfera de proximidade.
Não se trata de fazer piada quando existe um problema sério, mas não tratar toda dificuldade cotidiana em uma questão de honra.
Você não precisa dar opinião sobre tudo
Isso é libertador!
Nem toda coisa que você pensa precisa ser dita, não precisa corrigir o tempo todo, sua opinião não é tão importante ou necessária assim. Vale descer do pedestal um pouco.
Mas entenda, isso não significa abrir mão de limites, valores ou verdades importantes.
Significa aprender a distinguir o que realmente precisa ser dito daquilo que apenas satisfaz nossa necessidade de controlar.
Pergunte a si mesma:
Isso precisa ser corrigido?
Isso precisa ser dito agora?
Isso é realmente importante ou eu apenas quero que seja feito do meu jeito?
Essas perguntas simples podem evitar muitas discussões desnecessárias.
E o que mais vejo nas discussões em consultório é o casal enxergar que o problema não é que o outro esteja fazendo algo errado, é a maneira diferente dele de agir.
E nós confundimos diferença com erro.
O casal não precisa eliminar os conflitos. Precisa aprender a atravessá-los.
Não existe casamento sem momentos de dissonância.
Haverá pneu murcho, atraso, conta inesperada, filhos desobedientes, cansaço…
A questão não é construir um casamento onde ninguém discorda, mas um casamento onde a discordância não destrói a unidade.
Quando perceber que a conversa está saindo do eixo, pare.
Respire.
Tome alguma distância interior.
Pergunte o que realmente está em jogo.
E, principalmente, pergunte:
“Estou tentando encontrar a melhor solução ou estou tentando vencer?”
Essa pergunta pode mudar uma discussão inteira.
Porque, no casamento, a verdadeira vitória não acontece quando um marido derrota a esposa em um argumento.
Nem quando uma esposa consegue provar que estava certa.
A verdadeira vitória acontece quando os dois conseguem atravessar uma dificuldade sem perder o amor, a consideração e a unidade.
No fim, o pneu pode precisar ser trocado.
Ou talvez só precise ser calibrado.
Mas uma coisa é certa: nenhum pneu vale a paz que um casal pode perder quando transforma uma pequena discordância em uma batalha.
Com amor
Sua terapeuta
