Antes de salvar o casamento, talvez seja preciso nascer.
Existe uma pergunta que começou a me acompanhar dentro do consultório.
Ela não apareceu de uma vez, foi surgindo paciente após paciente, história após história.
No início, eu acreditava que atendia mulheres com dificuldades no casamento.
Hoje, não tenho tanta certeza.
O problema começou muito antes e não estou falando aqui da relação com a família de origem. Estou falando de uma mulher que nasceu, cresceu e atravessou a vida inteira sem nunca ter construído um lugar firme dentro de si.
Já perdi as contas de quantas vezes ouvi frases como estas.
“Meu marido vive dizendo que meu passado me desqualifica.”
“Desde criança escuto piadas sobre a minha aparência.”
“Passei a vida tentando encontrar em outros homens o afeto que nunca recebi.”
“Preciso descobrir minha feminilidade.”
As histórias são diferentes, cada paciente é de um canto desse mundo, mas existe um ponto em comum entre elas:
Nenhuma dessas mulheres sofre apenas pelo que aconteceu, elas sofrem porque, aos poucos, permitiram que a própria identidade fosse escrita pelas vozes ao redor.
Elas estão sempre relatando o que o marido diz sobre quem ela é, falam sobre como a mãe ou o pai dizem quem ela é, ou pior, o que as redes sociais dizem quem ela é.
E, depois de tantos anos ouvindo todos falarem, ela já não consegue distinguir a própria voz no meio desse barulho.
Há algum tempo percebi que, em algumas sessões, eu quase deixava de falar sobre o casamento.
Não porque ele tivesse perdido a importância, mas porque comecei a perceber algo desconfortável: Como trabalhar um vínculo entre duas pessoas quando uma delas ainda não encontrou a si mesma?
É como tentar decorar uma casa cujas paredes ainda não foram construídas.
Antes de aprender a amar alguém, talvez seja preciso existir.
Existe uma pergunta simples que, às vezes, faço durante uma sessão:
- Quem é você além dos papéis que desempenha?
O silêncio costuma responder antes da paciente, porque veja, ela sabe dizer que é esposa, mãe, advogada/médica, filha da dona Maria e do seu Alceu, mãe da Jujuba.
Mas, quando os papéis são retirados, sobra um enorme vazio.
E você já percebeu que nossa cultura nos ensinou a confundir identidade com função?
Só que funções mudam, né?
E quando tudo isso muda, quem permanece?
Essa pergunta costuma assustar.
Mas talvez seja uma das perguntas mais importantes da vida adulta.
Percebo também outro movimento curioso.
Algumas mulheres chegam convencidas de que precisam “curar a feminilidade”.
Sempre acho essa expressão interessante.
Porque, muitas vezes, elas ainda estão tentando encontrar uma versão ideal de si mesmas antes mesmo de aprender a habitar a mulher real que já são.
Existe uma ansiedade enorme em chegar “lá”, como se amadurecimento fosse um destino, mas amadurecimento nunca foi um lugar.
É um caminho.
Ninguém amadurece por ansiedade.
Amadurece pela disposição de permanecer no processo.
Também vejo mulheres que passaram anos tentando conquistar o amor que nunca receberam, aqui podemos falar do amor de pai e mãe, que muitas vezes é projetado no casamento.
É impossível não sentir compaixão por essa dor, uma filha que não se sentiu amada pelos pais.
Quem não deseja ser amado?
O problema é quando esperamos que alguém nos entregue aquilo que nunca tivemos oportunidade de construir dentro de nós.
Nenhum relacionamento consegue fabricar uma identidade.
Essa tarefa pertence à própria pessoa.
Talvez seja justamente por isso que tantos casamentos estejam tão cansados.
Percebo aqui que não porque falte amor, mas vejo duas pessoas que foram para o altar esperando que o outro resolva uma pergunta que elas mesmas ainda não responderam:
Quem sou eu?
Como ela não conseguiu responder essa pergunta, projeta nele expectativas, aguardando que ele a valorize, dê prioridade, que confirme a beleza, que dê segurança, que aplauda o sucesso…
Ele por sua vez tenta fazer a mesma coisa, mas de formas diferentes e sem perceber, ambos passam a pedir identidade um ao outro.
E ninguém consegue oferecer aquilo que nunca lhe pertenceu.
São anos estudando tecnicamente e empiricamente e percebi que existe uma hierarquia que precisa ser respeitada:
Primeiro nasce a pessoa.
Depois nasce o casal.
Mais tarde nasce a família.
Quando tentamos inverter essa ordem, o peso se torna insuportável. Veja só:
Esperamos que o casamento produza uma mulher inteira.
Esperamos que os filhos deem sentido à existência.
Esperamos que a família cure feridas que vêm da infância.
Mas nenhuma dessas relações foi criada para carregar esse peso.
Elas existem para aperfeiçoar uma pessoa que já começou a existir.
Não para criá-la do zero.
Talvez amadurecer seja justamente isso:
Parar de perguntar ao mundo quem você é.
Parar de entregar aos outros o direito de definir seu valor.
Parar de viver apenas reagindo às vozes que sempre falaram sobre você.
Existe um momento em que precisamos, finalmente, assumir essa responsabilidade.
Não para inventar uma identidade.
Mas para descobrir, pouco a pouco, aquela que já estava ali, escondida sob tantas expectativas, medos e projeções.
Porque ninguém nasce pronto.
Mas chega um tempo em que continuar esperando que outra pessoa nos diga quem somos deixa de ser uma ferida e passa a ser uma escolha.
E talvez seja justamente aí que comece o verdadeiro amadurecimento, não quando encontramos alguém que nos complete, mas quando finalmente nos tornamos alguém capaz de amar sem pedir ao outro a tarefa impossível de nos ensinar a existir.
Com amor
Sua terapeuta
